Como o reforço positivo pode melhorar o bem estar dos leões?

Quando pensamos em procedimentos veterinários com grandes felinos, é comum imaginar contenção física ou até anestesia. Mas será que um leão pode aprender a participar voluntariamente de parte desses cuidados?
Um estudo publicado no Journal of Applied Animal Welfare Science investigou justamente essa possibilidade. Seis leoas africanas mantidas sob cuidados humanos foram treinadas por meio de condicionamento com reforço positivo para permitir voluntariamente a realização de coletas de sangue e swabs vaginais.
O que é reforço positivo nesse contexto?
No estudo, os pesquisadores utilizaram uma combinação de clicker, alvo e recompensa alimentar.
Primeiro, as leoas aprenderam a associar o som do clicker a uma recompensa. Depois, passaram a seguir um alvo e tocar nele com o focinho. A partir daí, novos comportamentos foram ensinados gradualmente, como aproximar se da plataforma, deitar e permanecer na posição necessária para o manejo.
Esse processo permitiu que o animal aprendesse cada etapa progressivamente, sempre recebendo reforço após a resposta desejada.
No começo, elas evitavam o espaço
Antes da implementação do treinamento, as leoas normalmente não demonstravam interesse pelo compartimento utilizado para manejo e podiam até evitá lo, a não ser quando havia alimento ou necessidade de intervenção veterinária.
Com o passar das sessões, esse comportamento mudou.
Ao final do estudo, elas passaram a se aproximar do local assim que percebiam a preparação dos equipamentos. Em algumas ocasiões, aguardavam na plataforma ou próximas aos materiais de treinamento até o início da atividade.
Quanto tempo levou?
Todas as seis leoas aprenderam os princípios básicos de clicker e target em cerca de duas semanas.
O treinamento completo até a realização rotineira das coletas levou aproximadamente 20 semanas.
Ao longo dos 18 meses do projeto, os pesquisadores conseguiram obter cerca de 750 swabs vaginais e 650 amostras de sangue utilizando esse protocolo.
Por que isso é importante para o bem estar?
Procedimentos realizados com contenção física ou química podem representar desafios para o animal e para a equipe. O próprio artigo destaca que contenções físicas podem aumentar o risco de lesões, enquanto a anestesia pode produzir efeitos fisiológicos indesejados e interferir em alguns parâmetros avaliados.
Com o condicionamento, as leoas permaneceram calmas e cooperativas durante as sessões e demonstraram curiosidade pelo treinamento.
Os autores consideram que o método pode ajudar a reduzir o componente psicológico de estresse relacionado às formas tradicionais de contenção e facilitar tanto procedimentos veterinários quanto pesquisas fisiológicas.
O treinamento também pode funcionar como enriquecimento?
Embora o estudo não tenha sido desenvolvido especificamente para medir enriquecimento, os pesquisadores observaram respostas positivas durante as sessões.
As leoas demonstraram interesse em aprender novas tarefas em troca das recompensas, e os autores discutem que um programa de treinamento bem planejado pode funcionar como ferramenta de enriquecimento quando proporciona controle sobre o ambiente, possibilidade de escolha e novos desafios.
Por isso, o condicionamento com reforço positivo não deve ser entendido simplesmente como ensinar um animal a obedecer.
Quando aplicado de maneira adequada, ele pode facilitar a rotina veterinária, melhorar a segurança de animais e profissionais e oferecer uma experiência mais previsível e estimulante para o próprio felino.
Bem estar também passa pela escolha.
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Referência utilizada
CALLEALTA, Isabel; LUEDERS, Imke; LUTHER BINOIR, Ilse; GANSWINDT, Andre. Positive Reinforcement Conditioning as a Tool for Frequent Minimally Invasive Blood and Vaginal Swab Sampling in African Lions (Panthera leo). Journal of Applied Animal Welfare Science, 2019. DOI: 10.1080/10888705.2019.1709066.





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