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Habitat importa: monitorar a espécie também é monitorar o ambiente


Quando uma espécie deixa de aparecer em determinada área, a primeira pergunta costuma ser: para onde os animais foram?



Mas existe outra pergunta igualmente importante:

O que mudou naquele ambiente?

Nenhuma espécie vive isolada. Sua presença depende da disponibilidade de alimento, de áreas de abrigo e reprodução, da qualidade da água e de condições ambientais adequadas.


Por isso, monitorar apenas a quantidade de animais pode revelar uma mudança, mas nem sempre explica o motivo dela.


É necessário observar também o habitat.


O que precisa ser acompanhado?

O monitoramento ambiental pode incluir diferentes variáveis, dependendo da espécie e dos objetivos da pesquisa.


Temperatura e salinidade ajudam a entender as condições da água. A qualidade da água pode revelar alterações provocadas por poluição, excesso de nutrientes ou outros impactos.


A estrutura do habitat mostra se ainda existem áreas adequadas para alimentação, reprodução e abrigo.


Também é importante acompanhar atividades humanas, como pesca, tráfego de embarcações, ocupação costeira e alteração do fundo marinho.


Quando esses dados são analisados em conjunto com os registros das espécies, o monitoramento se torna mais completo.


O que um estudo com cavalos-marinhos revelou?

O artigo “Monitoring of Seahorse Populations, in the Ria Formosa Lagoon (Portugal), Reveals Steep Fluctuations: Potential Causes and Future Mitigations”, publicado por Miguel Correia, acompanhou populações de duas espécies de cavalos-marinhos na Lagoa da Ria Formosa, localizada no sul de Portugal.


As espécies estudadas foram o cavalo-marinho-de-focinho-longo, Hippocampus guttulatus, e o cavalo-marinho-de-focinho-curto, Hippocampus hippocampus.


Os pesquisadores retornaram aos mesmos 16 locais que já haviam sido avaliados em estudos anteriores. Dessa forma, puderam comparar dados coletados em 2002, 2008, 2012 e 2018.


Em cada local, foram realizados censos visuais subaquáticos por meio de mergulho. Quando um cavalo-marinho era encontrado, eram registradas informações sobre a espécie, o sexo e o tamanho do animal. A equipe também mediu a profundidade, a temperatura da água e a porcentagem de estruturas disponíveis para apoio ao redor de cada indivíduo.


Uma queda que não seria explicada apenas contando animais


Durante o levantamento de 2018, os pesquisadores encontraram 40 cavalos-marinhos, distribuídos em apenas 6 dos 16 locais estudados. Nos outros 10 pontos, nenhum indivíduo foi registrado.


Entre os animais observados, 33 pertenciam à espécie H. guttulatus e apenas 7 eram H. hippocampus.


A densidade de H. guttulatus diminuiu significativamente entre 2002 e 2008, voltou a aumentar em 2012 e caiu novamente em 2018. Já H. hippocampus foi encontrado em densidades menores, e as diferenças ao longo dos períodos não foram estatisticamente significativas.


Ao comparar os levantamentos mais antigos com o realizado em 2018, o estudo estimou uma redução de aproximadamente 90% na população de H. guttulatus e 67% em H. hippocampus.


Mas contar os indivíduos era apenas uma parte da investigação.


O habitat ajudou a explicar os resultados

Os cavalos-marinhos possuem baixa mobilidade e utilizam diferentes estruturas para se prender com a cauda. Essas estruturas, chamadas de holdfasts, podem ser formadas por vegetação marinha, algas, conchas, organismos fixos e até materiais artificiais.


O estudo encontrou uma relação positiva entre a densidade de H. guttulatus e a porcentagem dessas estruturas no ambiente. Isso significa que locais com maior disponibilidade de pontos adequados para apoio tendiam a apresentar mais indivíduos dessa espécie.


A análise também mostrou que cerca de 75% do fundo monitorado era formado por áreas descobertas de areia fina e lama. As estruturas disponíveis incluíam fragmentos de conchas, tunicados, vegetação marinha, algas e uma pequena quantidade de materiais artificiais.


Os animais não utilizavam todos esses elementos da mesma maneira. H. guttulatus foi observado com frequência preso à alga Caulerpa prolifera, enquanto H. hippocampus utilizou principalmente tunicados e fragmentos de conchas.


Essas informações mostram que a presença do animal está diretamente relacionada ao que o ambiente oferece.


Quando o habitat muda, a espécie também pode mudar


A Lagoa da Ria Formosa passou por transformações importantes ao longo dos anos. O estudo menciona a redução de áreas de vegetação marinha, mudanças na cobertura do fundo, expansão da alga Caulerpa prolifera e registros de pesca ilegal direcionada aos cavalos-marinhos.


A perda de vegetação e de estruturas de apoio pode deixar os animais mais expostos e reduzir as áreas disponíveis para abrigo, alimentação e reprodução.


Ao mesmo tempo, algumas espécies podem tentar utilizar estruturas alternativas. Isso mostra que os animais podem apresentar certa capacidade de adaptação, mas não significa que a degradação do habitat deixe de representar uma ameaça.


Quando as populações já estão em baixa densidade, impactos contínuos podem aumentar o risco de desaparecimento local.


O estudo dos cavalos-marinhos confirma essa relação na prática. Os pesquisadores não observaram apenas quantos animais existiam. Eles também analisaram características do ambiente capazes de explicar as oscilações encontradas.


É exatamente por isso que o monitoramento pode incluir:

temperatura e salinidade;

qualidade da água;

estrutura do habitat;

disponibilidade de alimento e abrigo;

impactos provocados pelas atividades humanas.


Esses dados ajudam a explicar a presença ou a ausência das espécies, localizar áreas importantes para reprodução e alimentação, identificar mudanças ao longo do tempo e orientar estratégias de manejo.


Conservar melhor começa por observar melhor

Monitorar a espécie permite saber quem está ali.


Monitorar o habitat ajuda a entender por que ela está ali, por que pode ter desaparecido e do que precisa para permanecer.


Quando as duas informações são reunidas, pesquisadores e gestores conseguem desenvolver medidas de conservação mais eficientes, proteger áreas prioritárias e agir antes que uma mudança se torne irreversível.


Espécie e ambiente não são partes separadas do monitoramento. Eles contam a mesma história.


Em breve, o prof. Leandro apresentará o Curso de Monitoramento da Biodiversidade Marinha, abordando metodologias, aplicações e a importância de transformar dados em ações para a conservação.


Referência

CORREIA, Miguel. Monitoring of Seahorse Populations, in the Ria Formosa Lagoon (Portugal), Reveals Steep Fluctuations: Potential Causes and Future Mitigations. Proceedings of the Zoological Society, v. 75, p. 190–199, 2022. DOI: 10.1007/s12595-021-00394-2.

 
 
 

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