Menopausa em baleias? O que a evolução pode nos contar sobre esse fenômeno

Quando pensamos em menopausa, normalmente associamos o fenômeno aos seres humanos. Porém, algumas espécies de mamíferos marinhos também apresentam uma fase prolongada da vida após o encerramento da reprodução.
O artigo de Dave Dalton, publicado em 2022 no Journal of Theoretical Biology, discute justamente uma questão evolutiva: por que a menopausa ocorre em tão poucas espécies de mamíferos?
Segundo o trabalho, além dos humanos, o fenômeno é observado em quatro espécies de cetáceos: orca (Orcinus orca), baleia-piloto-de-aleta-curta (Globicephala macrorhynchus), beluga (Delphinapterus leucas) e narval (Monodon monoceros).
O que essas espécies teriam em comum?
O autor propõe três características principais que estariam presentes nas espécies menopausais.
A primeira seria a longevidade, com fêmeas vivendo, em média, 40 anos ou mais. A segunda seria a vida em grupos sociais. A terceira, considerada central pelo autor, seria uma diferença de pelo menos 30% entre a expectativa média de vida de fêmeas e machos, com as fêmeas apresentando maior longevidade.
O trabalho também apresenta um critério adicional relacionado ao quociente de encefalização (EQ), uma medida que compara o tamanho cerebral observado com o esperado para o tamanho corporal. O autor observa valores relativamente altos entre as espécies consideradas menopausais.
É importante destacar que esses critérios constituem uma teoria proposta pelo artigo, e não regras universalmente estabelecidas para explicar a evolução da menopausa.
E qual seria a vantagem de continuar vivendo após parar de reproduzir?
Essa é uma das perguntas mais interessantes da biologia evolutiva.
Uma das hipóteses mais conhecidas é a chamada “hipótese da avó”, segundo a qual fêmeas mais velhas poderiam aumentar indiretamente seu sucesso evolutivo auxiliando filhos e netos em vez de continuar produzindo novos descendentes.
Em orcas, por exemplo, pesquisas citadas no artigo indicam que fêmeas pós-reprodutivas podem auxiliar seus descendentes e exercer um papel importante durante a busca por alimento, funcionando como verdadeiros reservatórios de conhecimento ecológico dentro do grupo.
Entretanto, o próprio trabalho discute limitações dessa explicação e ressalta que a hipótese da avó, sozinha, ainda não explica completamente por que algumas espécies desenvolvem menopausa enquanto outras espécies sociais e longevas não apresentam o mesmo fenômeno.
Orcas e elefantes: uma comparação interessante
Um exemplo utilizado pelo artigo é a comparação entre orcas e elefantes.
Ambos são animais longevos, vivem em sociedades complexas e possuem fêmeas mais velhas que podem exercer papéis importantes no grupo. Entretanto, enquanto as orcas apresentam uma longa fase pós-reprodutiva, elefantes podem continuar se reproduzindo em idades avançadas.
Essa diferença mostra por que encontrar uma única explicação para a menopausa é tão difícil.
Por que estudar isso?
Compreender a menopausa em cetáceos ajuda pesquisadores a investigar como longevidade, reprodução, estrutura social e evolução podem estar relacionadas.
Também mostra que o sucesso evolutivo de uma fêmea não depende necessariamente apenas do número de filhotes que ela produz diretamente. Em algumas sociedades animais, experiência, liderança e auxílio aos descendentes podem continuar tendo valor mesmo depois do fim da reprodução.
Por enquanto, a origem evolutiva da menopausa permanece uma questão em debate. O artigo apresenta uma proposta baseada em características compartilhadas entre espécies menopausais, mas outras hipóteses continuam sendo estudadas.
Referência:Dalton, D. (2022). How evolutionary biology can explain why human and a few marine mammal females are the only ones that are menopausal. Journal of Theoretical Biology, 543, 111123.





Comentários